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Duas situações em que o Compliance entrou em campo na Copa do Mundo de 2018.

Há duas semanas nos despedimos do evento mais importante no mundo do Futebol. A Copa do Mundo 2018 acabou, mas nos deixou algumas lições. 

Kolinda x França

A França levou o título de melhor seleção, porém teve de dividir as manchetes mundiais com as reportagens acerca das condutas da presidente da Croácia, Kolinda Brabar-Kitarović[1]. Segundo o site Mediatoolkit, que realiza levantamento de dados, as publicações sobre ela superaram 25% as da seleção croata, durante o jogo da final. Se somados com as notícias sobre o país que lidera, foram mais de um milhão de artigos e 60 bilhões de visualizações. O número supera tudo que já foi publicado on-line em toda a história da Croácia.
A presidente roubou a cena, como afirmou o governo croata, ao descontar de seu salário os dias em que ficou afastada para torcer na Copa, bem como comprar suas passagens de avião na classe econômica e seus ingressos para assistir ao mundial com recursos próprios. Ela ainda recusou a área VIP em algumas partidas, para estar junto de seu povo na arquibancada.
A repercussão das condutas absolutamente adequadas, éticas e transparentes da presidente croata, demonstra que o comportamento antiético e a apropriação do patrimônio público em prol dos interesses particulares de políticos tornou-se algo tão corriqueiro, que as atitudes corretas e de caráter passam a ser vistas como anormais, chegando até ao ponto de impressionar, virando notícia de destaque mundial.
As escolhas de Kolinda refletem o primeiro pilar de um Programa de Compliance efetivo, qual seja o apoio incondicional da alta administração e a gestão pelo exemplo.
Exemplos de atitudes responsáveis e alinhadas a valores justos e verdadeiros, demonstram o comprometimento do líder e são fundamentais para garantir os esforços da organização em direção à cultura da ética e da transparência. Se a autoridade máxima não tiver condutas éticas, nenhum outro as terá.
A Croácia, representada através do carisma e das atitudes dignas de sua presidente, ganhou a simpatia nacional. Isso demonstra que estar em conformidade reflete diretamente na boa reputação.

Você é o que você posta

 

Alguns brasileiros aproveitaram o evento para fazer e publicar em suas redes sociais, vídeos de mulheres de outras nacionalidades repetindo palavras de baixo calão.
A má-conduta levou um deles, funcionário da LATAM, a ser demitido e trouxe à tona a discussão acerca do nexo existente entre o comportamento pessoal e profissional.
Sabe-se que a linha que divide esses comportamentos é muito tênue: pessoas físicas são associadas à marca da pessoa jurídica em que trabalham, assim como seus comportamentos também o são. Não há como dissociar.
Quando se trabalha em um lugar é natural que terceiros acreditem que ambos partilhem de valores comuns.
Em nota, a empresa respondeu que: “nós da LATAM Airlines Brasil repudiamos veementemente qualquer tipo de ofensa e prática discriminatória e reforçamos que qualquer opinião que contrarie o respeito não reflete os valores e os princípios da empresa. Confirmamos que o rapaz que aparece no vídeo faz parte do quadro de colaboradores da companhia e seguimos apurando os fatos”.
A empresa comprovou que leva a sério seu código de conduta[2]que proíbe piadas que expõem alguém, ridicularizem, ofendam o indivíduo de uma determinada raça ou religião, entre outros, e que impõe o dever de cuidado “com sua imagem e com as informações ou ilustrações que publica em Redes Sociais”.
A resposta da LATAM foi um exemplo do que é estar em conformidade, ou seja, da prática de Compliancee de resposta rápida à uma crise de integridade e imagem empresarial.
Com a globalização, o que uma pessoa publica em suas redes sociais deixa de ser pessoal, torna-se público e reflete diretamente à instituição que aquela pessoa faz parte, o que impõe às empresas a necessidade da edição de um Código de Conduta, um dos instrumentos do Compliance.
Em um outro vídeo, aparece um tenente da Polícia Militar de Santa Catarina, a instituição também se manifestou a respeito:

“A corporação não corrobora com este tipo de atitude, que é incompatível com a profissão e o decoro da classe, previsto no Regulamento Disciplinar e no Estatuto da PMSC, independentemente de estar em período de férias, folga de serviço ou qualquer outra situação de afastamento, devendo, portanto, responder por suas atitudes”.
Os episódios confirmam que comportamentos que antes poderiam ser aceitáveis, hoje são considerados inadequados no ambiente corporativo, fazendo com que empresas reflitam sobre a necessidade de adequar seus Códigos de Conduta.

Assédios e atitudes preconceituosas, não só no ambiente de trabalho, mas em todas as atitudes daqueles que vestem a camisa da empresa, devem estar na pauta principal. Daí deriva a necessidade de, além da elaboração do Código, uma capacitação efetiva de todos os colaboradores, através de treinamentos frequentes, para que a organização e todos os seus funcionários, desde a alta administração até o chão de fábrica, caminhem lado a lado compartilhando dos mesmos valores e crenças.
Lamentavelmente, além estarem associados às organizações em que trabalham, os autores dos vídeos vestem a camisa e estão diretamente associados ao nosso país. Espera-se que o Compliance, que busca além de uma mudança na cultura empresarial da corrupção, colabore para a mudança ética de nossos cidadãos.
Por fim, a Copa do Mundo de 2018 nos ensinou que Compliance é algo muito maior do que um Programa de Integridade e do que a Lei Anticorrupção. Compliance é um aspecto cultural e deve permear tanto as relações profissionais, quanto as pessoais.


[1] O presente artigo é livre de qualquer mérito acerca das decisões políticas da presidente.

http://www.latamairlinesgroup.net/phoenix.zhtml?c=251290&p=irol-govConduct. Acesso em 21 de junho de 2018.

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